Programa cultural em SP

>> 21 outubro, 2010

Depois de semanas enrolando, sábado finalmente fomos ao Museu da Língua Portuguesa. Tá rolando a exposição de Fernando Pessoa, primeiro português com esse destaque lá no museu. Confesso que conheço pouco de Pessoa e voltei conhecendo ainda menos – é incrível como o cara escreveu e mais incrível ainda descobrir que ele só teve um livro de poemas publicado em vida, todos os outros vieram após a sua morte.
Acabamos indo de metrô e foi a melhor escolha que fizemos, assim pudemos sair de lá e ainda dar uma passadinha na Liberdade pra ver o Frood e comer um pastel na Yoka – a melhor pastelaria ever!

Bom, chegamos ao museu e estava LOTADO! Fiquei abismada com a quantidade de gente e quantas famílias com crianças estavam lá. Aliás, vi uma cena que quase me fez chorar: um menininho com seus seis anos lia um poema na parede daquele jeito característico de quem está aprendendo a ler, coisa mais fofa! A exposição de Pessoa ocupa todo o primeiro andar. Logo de cara há “casas” para cada um dos seus principais heterônimos e uma para outros heterônimos do poeta onde são projetadas poesias.

Caminhando, há várias poesias pelas paredes, uma que aparece ao contrário e só é possível ler ao olhar para o espelho ao lado. Ao final, há mais projeções – dessa vez em dois tanques de areia e alguns documentos, primeiras edições de alguns textos publicados por ele e uma linha do tempo. Uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a defesa que ele fez de seus amigos homossexuais .Não só ele, mas também Álvaro de Campos escreveram um artigo depois de um ataque dos estudantes aos poetas homossexuais. "Ó meninos: estudem, divirtam-se e calem-se. (...) Divirtam-se com mulheres, se gostam de mulheres; divirtam-se de outra maneira, se preferem outra. Tudo está certo, porque não passa do corpo de quem se diverte. Mas quanto ao resto, calem-se. Calem-se o mais silenciosamente possível". Fiquei pensando em como a situação seria naquela época e quão rara deveria ser essa lucidez e essa coragem para defender os amigos.

Para quem estuda psicanálise, fica impossível não pensar na “viagem” de criar todos esses personagens, que escreviam de maneira tão distinta e até se escreviam entre si, rs! Sem contar que todos eles tinham data de nascimento e morte e uma história pessoal.

Diante de todas as poesias, fiquei surpresa com uma mais incrível que a outra. Mas não sei exatamente porque, essa foi sem dúvidas a que mais mexeu comigo.

Quando vier a Primavera – Alberto Caeiro

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.

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