A mídia tem culpa?

>> 16 abril, 2008

Ninguém vai pra faculdade de jornalismo para aprender a escrever, embora muitos ainda ingressem sem saber fazê-lo. Aprende-se um pouco de cada editoria: cultura, economia, política, inter, etc.; e também de cada área de atuação: jornal impresso, revista, tv, rádio, comunicação interna, assessoria de imprensa. Também vemos teoria da comunicação, história do jornalismo e afins, além de ética e filosofia.
Por que to falando isso? Quem mora no Brasil só vê, ouve e fala sobre uma coisa: o assassinato da menina Isabella. Nem vou falar sobre o caso, porque já estamos todos cansados de ouvir sobre isso, mas, como jornalista, queria levantar uma questão: a mídia está fazendo uma boa cobertura do caso? Comecei a pensar nisso depois que minha irmã me questionou o destaque imenso que o caso estava tendo e me lembrei de uma das teorias que vi na faculdade: Agenda Setting.
De acordo com essa teoria, a imprensa leva as pessoas a pensarem sobre determinado tema, mas não como pensar. Nesse caso, a sensação que se tem é que a mídia está "dizendo" exatamente sobre e o que pensar!
Encontrei um artigo interessante sobre o tema lá no Observatório da Imprensa, escrito pouco após a morte. Atualmente, a situação está um pouco mais diferente, mas o artigo ainda é válido!

O caso Isabella Nardoni é uma nova Escola Base?
Por Luiz Antonio Magalhães em 2/4/2008

O episódio da morte da menina Isabella Oliveira Nardoni, de 5 anos, que está comovendo o país, e é um desses casos policiais repletos de mistérios e que pode até ter um final surpreendente. A partir da história contada pelo pai e pela madrasta da menina à polícia, as suspeitas se voltaram justamente contra o casal, especialmente o pai: segundo o relato, ele teria subido para o apartamento com Isabella já adormecida, colocado ela na cama, trancado a porta e retornado para a garagem a fim de ajudar sua mulher a subir com os dois filhos do casal, meio-irmãos da garota. Quando enfim os dois voltaram ao apartamento com as crianças, a porta estaria aberta, a luz do quarto dos irmãos de Isabella acesa, e a rede de proteção, cortada. Por ali a menina teria sido jogada para a morte.

Uma série de indícios, porém, colocaram em xeque a versão do pai e da madrasta: havia vestígios de sangue no apartamento, Isabella parece ter morrido por asfixia e quebrou apenas um pulso na queda. Há também o relato de vizinhos que teriam ouvido a menina gritar "Pára, pai! Pára, pai!". Tudo isto deu motivo para que uma delegada que acompanha o caso tenha chamado o pai de Isabella de assassino na saída do depoimento à polícia. Segundo informação publicada nos jornais, há entre os investigadores quem acredite que Isabella sequer foi jogada pela janela.

A soma dos indícios sem dúvida pode levar o público a desconfiar da história contada pelo pai e pela madrasta da criança morta, mas não pode de maneira alguma permitir que os responsáveis pela publicação das reportagens sobre o caso tratem o casal como culpados ou mesmo suspeitos em um momento tão inicial das investigações.

Condenado a priori

Quando estourou o caso da Escola Base, hoje um exemplo estudado nas faculdades sobre o que não deve ser feito em matéria de jornalismo policial, um único jornal desconfiou da história e se recusou a dar uma linha sobre a cascata. Quando o caso foi elucidado e a inocência dos donos da escola restou provada, houve quem sugerisse que o hoje extinto Diário Popular recebesse, naquele ano, o Prêmio Esso de jornalismo pela não publicação das matérias.

Tempos depois, o Diário Popular foi vendido para as Organizações Globo e mudou de nome para Diário de S.Paulo. Pelo visto, mudou também de caráter: a primeira página reproduzida abaixo, da edição de terça-feira (1/4), configura um verdadeiro crime contra o bom jornalismo. Não se trata aqui de defender o pai de Isabella – ele pode até ser culpado pela morte da filha –, mas de constatar que a capa do Diário fere os princípios mais básicos da ética jornalística e da presunção da inocência.


Um cínico pode alegar que tudo que está na manchete do jornal é verdadeiro, o Diário não veiculou informação falsa nem acusou peremptoriamente o pai de Isabella de assassinato. Sim, e provavelmente esta capa passou pelo departamento jurídico do jornal para avaliar se ela poderia ser objeto de processo. A manchete certamente também cumpriu o objetivo de fazer o jornal vender mais. Os responsáveis pela publicação sabem, também, que esta manchete destruiu a reputação do pai de Isabella. Ainda que no final das investigações o assassino seja outra pessoa, como bem observou na terça-feira (2/4) o jornalista Clóvis Rossi na Folha de S.Paulo (ver íntegra abaixo), o pai de Isabella já foi condenado pela imprensa. No caso do Diário de S.Paulo, foi condenado e exposto com requintes de crueldade.

Lição esquecida

Para o advogado do casal, a menina realmente gritou, mas foi por ajuda: teria sido algo como "Pára, pára! Pai, pai!", o que também faz sentido se ele estivesse sendo atacada por uma terceira pessoa. A quem mais ela poderia recorrer senão ao pai?

O Diário de S.Paulo apostou todas as suas fichas em uma hipótese, a de que o pai de Isabella está envolvido na morte da filha. Se ele de fato estiver, o jornal tripudiou sobre um assassino. Se não estiver, acabou com a vida de um homem inocente. O bom jornalismo poderia evitar este tipo de atitude intempestiva. Ao que parece, a lição da Escola Base já começou a ser esquecida.

2 comentários:

Fernanda 18 de abril de 2008 às 02:00  

Oie
nossa... li todos os seus posts
eu nem to ai, mas to sabendo do caso dessa menina... n sei exatamente
sei la
gostei das informacoes
bjussssss

se cuida

Larissa 19 de abril de 2008 às 22:14  

Oi Larissa!

Eu tb fiz jornalismo e estudei agenda setting, escola base e tal...
As coisas no nosso jornalismo nao andam boas e ultimamente ganha a vaga quem consegue vender mais jornal e nao necessariamente o jornalista que faz o trabalho mais serio... fazer o que?

beijocas!!

Lari

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